O ARCO DE SANTANA
Debruçámo-nos no parapeito,
sobre a Igreja dos Grilos,
Garrett atravessa o Arco de Santana,
atinge o largo fronteiro à igreja
e começa a imaginar o seu romance:
a história do burgo, a exclusão
medieval da fidalguia. O dédalo
de ruas sujas faz nascer a intriga
que poderá desenvolver se as bocas
dos canhões da Serra do Pilar não
ferirem o dia do Batalhão Académico
instalado nos Grilos. O barroco
da frontaria interessa-o, discutiu
com o soldado Herculano a traça
do abrigo em que repousam. Cercados,
sem saber das sortes do dia de amanhã
que pode ceifar sonhos. A morte
presente filtra milhares de coisas
que buscam o seu desenho no incerto
futuro. Nascido na rua do Calvário
na transição do século não espera
mau augúrio desse facto. A vida terá
de lhe ser dominada e fiel. Esta tarde,
se o tiroteio não for impeditivo,
vai começar a escrever. Deste muro,
olhamos a frontaria deserta; ninhos
de andorinhas entre as volutas. Sonhamos
o soldado Garrett: ele detém-se antes
de entrar na gélida penumbra
do abandonado convento, segue
por alguns segundos o voo das aves
– e o das suas ideias –. Volta-se,
olha o céu, já se ergue um vento
que traz do Sul as nuvens. Pode até
chover. Será, para trabalhar o destino
de Aninhas, uma tarde propícia.
6.2.97
In "Daqui Houve Nome Portugal"
Org. de Eugénio de Andrade – Edições Asa
Egito Gonçalves
1920 – 2001