CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas que deram "voz" ao Porto (2)... Egito Gonçalves

O ARCO DE SANTANA


 


Debruçámo-nos no parapeito,


sobre a Igreja dos Grilos,


Garrett atravessa o Arco de Santana,


atinge o largo fronteiro à igreja


e começa a imaginar o seu romance:


a história do burgo, a exclusão


medieval da fidalguia. O dédalo


de ruas sujas faz nascer a intriga


que poderá desenvolver se as bocas


dos canhões da Serra do Pilar não


ferirem o dia do Batalhão Académico


instalado nos Grilos. O barroco


da frontaria interessa-o, discutiu


com o soldado Herculano a traça


do abrigo em que repousam. Cercados,


sem saber das sortes do dia de amanhã


que pode ceifar sonhos. A morte


presente filtra milhares de coisas


que buscam o seu desenho no incerto


futuro. Nascido na rua do Calvário


na transição do século não espera


mau augúrio desse facto. A vida terá


de lhe ser dominada e fiel. Esta tarde,


se o tiroteio não for impeditivo,


vai começar a escrever. Deste muro,


olhamos a frontaria deserta; ninhos


de andorinhas entre as volutas. Sonhamos


o soldado Garrett: ele detém-se antes


de entrar na gélida penumbra


do abandonado convento, segue


por alguns segundos o voo das aves


– e o das suas ideias –. Volta-se,


olha o céu, já se ergue um vento


que traz do Sul as nuvens. Pode até


chover. Será, para trabalhar o destino


de Aninhas, uma tarde propícia.


 


 


6.2.97


 


In "Daqui Houve Nome Portugal"


Org. de Eugénio de Andrade – Edições Asa


 


Egito Gonçalves


1920 – 2001


 


 


 


 

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