CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas que deram "voz" ao Porto (2)... Inês Lourenço

RUA DE CAMÕES


 


A minha infância

cheira a soalho esfregado a piaçaba

aos chocolates do meu pai aos Domingos

à camisa de noite de flanela

da minha mãe

Ao fogão a carvão

à máquina a petróleo

ao zinco da bacia de banho




Soa a janelas de guilhotina

a desvendar meia rua

surgia sempre o telhado

sustentáculo da mansarda

obstáculo da perspectiva

Nele a chuva acontecia

aspergindo ocres mais vivos

empapando ervas esquecidas

cantando com as telhas liquidamente

percutindo folhetas e caleiras

criando manchas tão incoerentes nas paredes

de onde podia emergir qualquer objecto

E havia a Dona Laura

senhora distinta

e a sua criada Rosa

que ao nosso menor salto

lesta vinha avisar

que estavam lá em baixo

as pratas a abanar no guarda-louça

O caruncho repicava nas frinchas

alongava as pernas

a casa envelhecia

Na rua das traseiras havia um catavento

veloz nas turbulências de Inverno

e eu rejeitava da boneca

a imutável expressão

A minha mãe fazia-me as tranças

antes de ir para a escola

e dizia-me muitas vezes




Não olhes para os rapazes

que é feio.


 


 


In "Um Quarto com Cidades ao Fundo" – poesia reunida (1980-2000)


Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 2000


 


Inês Lourenço


N. 1942


 

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