CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas que deram "voz" ao Porto (2)... Isabel de Sá

DESCIA A NEBLINA


 


Na pastelaria duas


prostitutas conversavam. A magreza


de uma delas impressionava.


Não havia mais ninguém. Cadeiras


alinhadas, mesas vazias. Tudo limpo,


espelhos sem mácula. Os criados


pareciam estátuas por detrás


do balcão. Na rua, os automóveis


conduzidos por loucos. Em plena


cidade, quase aldeia, tal


velocidade é para matar.


 


Ao sair, o ruído era semelhante


à imagem do Inferno reproduzida


no catecismo. Descia a neblina


sobre os prédios, gaivotas


vinham da Foz. Um mendigo de barbas


atravessou a rua, despreocupadamente.


 


 


In "Erosão de Sentimentos"


Editorial Caminho


 


Isabel de Sá


N. 1951


 


 

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