CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas que deram "voz" ao Porto... Eugénio de Andrade

 


UM RIO TE ESPERA


 


Estás só, e é de noite


na cidade aberta ao vento leste.


Há muita coisa que não sabes


e é já tarde para perguntares.


Mas tu já tens palavras que te bastem,


as últimas,


pálidas, pesadas, ó abandonado.


 


Estás só


e ao teu encontro vem


a grande ponte sobre o rio.


Olhas a água onde passaram barcos,


escura, densa, rumorosa


de lírios ou pássaros nocturnos.


 


Por um momento esqueces


a cidade e o seu comércio de fantasmas,


a multidão atarefada em construir


pequenos ataúdes para o desejo,


a cidade onde cães devoram,


com extrema piedade,


crianças cintilantes


e despidas.


 


Olhas o rio


como se fora o leito


da tua infância:


lembras-te da madressilva


no muro do quintal,


dos medronhos que colhias


e deitavas fora,


dos amigos a quem mandavas


palavras inocentes


que regressavam a sangrar,


lembras-te de tua mãe


que te esperava


com os olhos molhados de alegria.


 


Olhas a água, a ponte,


os candeeiros,


e outra vez a água;


a água;


água ou bosque,


sombra pura


nos grandes dias de verão.


 


Estás só.


Desolado e só.


E é de noite.


 


 


In "Antologia Breve" – 5ª. Edição – 1985 – Editora Limiar


 


Eugénio de Andrade


1923 – 2005  


 


 

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