CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetas que deram "voz" ao Porto... Guilherme Braga



9 DE JULHO


 


Troa um férvido rebate


Como signal de combate


Dentro dos muros sagrados!


Sejamos dignos herdeiros


Dos indomáveis guerreiros


Dos nossos dias passados!


Rindo, affrontemos os crimes,


Como apóstolos, sublimes!


Valentes, como soldados!


 


Saudemos a ideia santa


Que aos pés dos livres supplanta,


Quebra, esmaga as gargalheiras!


A ideia que n'estes muros


Acossa os corvos escuros,


Ergue as sagradas bandeiras,


E, ante um deus mentido e falso,


Riu do algoz no cadafalso,


Riu das ballas nas trincheiras!


 


Sim! d'essa ideia aos impulsos


Que o Porto desprenda os pulsos


Dos ferros da iniquidade!


Entremos na lucta ardente,


Filhos da raça valente,


Filhos da heróica cidade!


Com phrenetico delírio


Entre a gloria, entre o martyrio,


Saudemos a liberdade!


 


A liberdade! a estrella redemptora,


                Cheia de imensa luz,


Que fulgia, serena como a aurora,


                Na fronte de Jesus!


 


A liberdade! a ideia tormentosa,


                Mil vezes n'um só,


Que rugia, tremenda e clamorosa,


                Na voz de Mirabeau!


 


Se, á luz de mil granadas coruscantes,


                Lh'ergueram novo altar


Nossos pães, ao saudal-a agonisantes,


Na serra do Pilar,


 


Sem medo aos sabres nus entre as espadas


                Que ferem nossa mãe


Sobre estas velhas aras derrubadas


                Saudemol-a também!


 


Mas ah! Porque a seus pés a nova guarda assoma,


E altiva lhe consagra os hynnos do futuro,


Tem nas veias o arder o torvo filtro impuro,


Dos Borgias e veneno! O bálsamo de Roma!


 


O escuro umbra et nihil, que Roma tinha á porta,


Negreja agora aqui nas armas da cidade!


O altar é mausuléo ! Filhos da Liberdade,


Enramae de laureis  a campa d'essa morta!


 


In "Poesias" – Ed. R.V. – Barcelos – 1898




Guilherme Braga


1845 – 1874


 


 

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