AMNÉSIA
Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas,
apenas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor,
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me pesa e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exacta,
uma fórmula sonora, que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa nenhuma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
In "Cem Poemas Portugueses no Feminino"
Selecção e Org. de José Fanha e José Jorge Letria
Editora Terramar
Fernanda Botelho
1926 – 2007