CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetisas Portuguesas (1)... Isaura Matias Andrade

LOUCURA


 


Que importa que venhas, que passes agora?


Não quero saber…


E os olhos procuram, há mais de uma hora,


o bem de te ver!...


 


Os olhos tão tristes, famintos, coitados!...


– Porque é que não vens?


Também que interessa? Dos dias passados,


lembranças não tens!...


 


– Nem eu, estou certa. Se é só fantasia


que tudo isto encerra…


Jurei: Hás de ver-me mais dura e mais fria


que as pedras da serra:


 


Desprezo, verás, teu olhar perturbante.


Deixo de ser eu,


se em tua presença não fôr mais distante


que a estrêla do Céu!...


 


Ver-te! Para quê? Se saudades não tenho,


nem vens por aqui.


Mas lá porque eu venho, e não sei porque venho,


não fôra por ti.


 


Lembrar que me lembras, meu Deus, que pavor!


– Mas isso que tem?


Não tenho, não tens, se não temos amor,


            está muito bem:


 


Não se perde nada, nem, dor, és cabida;


mentiras não contam.


Verdades são luzes e as luzes dão vida


assim que despontam.


 


O mundo prossegue na vida galharda;


o Sol está certo.


Há música, há risos, há homens em barda,


e eu… vejo um deserto!


 


Pensar que te esqueço tornou-se mania,


pareço uma louca!


Se trago, coitada, de noite e de dia


teu nome na bôca!...


 


 


In "Sinfonia da Terra" – 1943


Livraria Editora Educação Nacional – Porto


 


Isaura Matias de Andrade


1908


 


 


 

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