CÁ TE ESPERO...

Recordando... Poetisas Portuguesas (2)... Luiza Neto Jorge

A CASA DO MUNDO


 


Aquilo que às vezes parece


um sinal no rosto


é a casa do mundo


é um armário poderoso


com tecidos sanguíneos guardados


e a sua tribo de portas sensíveis.


 


Cheira a teias eróticas. Arca delirante


arca sobre o cheiro a mar de amar.


 


Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.


O corredor lembra uma corda suspensa entre


os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.


Janelas que cheiram ao ar de fora


à núpcia do ar com a casa ardente.


 


Luzindo cheguei à porta.


Interrompo os objectos de família, atiro-lhes


a porta.


Acendo os interruptores, acendo a interrupção,


as novas paisagens têm cabeça, a luz


é uma pintura clara, mais claramente lembro:


uma porta, um armário, aquela casa.


 


Um espelho verde de face oval


é que parece uma lata de conservas dilatada


com um tubarão a revirar-se no estômago


no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.


 


É a casa do mundo:


desaparece em seguida.


 


 


In "Cem Poemas Portugueses no Feminino"


Selecção e org. de José Fanha e José Jorge Letria


Editora Terramar


 


Luiza Neto Jorge


1939 – 1989


 


 


 

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