CÁ TE ESPERO...

Recordando... Políbio Gomes dos Santos

GÉNESIS


 


O mundo existe desde que eu fui nado.


Tudo o mais é um… era uma vez


- A história que se contou.


 


No princípio criou-se o leite que mamei


E eu vi que era bom e chorei


Quando a fonte materna secou.


 


A terra era sem forma


E vazia;


Havia trevas no abismo.


 


E formou-se o chão


E amassou-se o pão


Que eu comi.


(Era este aquela esponja que eu mordia,


Que eu babava,


Que eu sujava,


Que uma gente andrajosa pedia).


 


E então se fez


A geração remota dos papões:


Nascera a esmola, o medo, a prece


E o rosto que empalidece…


E a rosa criou-se,


Desejada,


E logo o espinho,


A lágrima,


O sangue.


Este era vermelho e doce,


A lágrima doce, brilhante, salgada;


No espinho havia o gosto


Da vingança perfumada.


 


E eu vi que tudo era bom.


E fizeram-se os luminares,


Porque eu tinha olhos,


E o som fez-se de cantares


E de gemidos,


Porque eu tinha ouvidos.


Nasceram as águas


E os peixes das águas


E alguns seres viventes da terra


E as aves dos céus.


O homem que então era vagamente feito,


Dominou o homem, comprimiu-lhe o peito,


E fizeram-se as mágoas


E o adeus,


 


E eu vi que tudo era bom.


 


A mulher só mais tarde se fez:


Foi duma vez


Em que eu e ela nos somámos


E ficamos três.


 


Nisto e no mais se gastaram


Sete longuíssimos dias,


O mundo era feito


E embora por tudo e nada imperfeito,


Eu vi que era bom.


 


Acaba o mundo


Quando eu morrer.


Sim… será o fim!


Também tu deixas de existir,


No mesmo dia.


 


E o resto que seguir


É profecia.


 


In “As Três Pessoas”


Portugália Editora


 


Políbio Gomes dos Santos


(1911-1939)

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