CÁ TE ESPERO...

Recordando... Ricardo Reis

DE NOVO TRAZ AS APARENTES NOVAS


 


De novo traz as aparentes novas


Flores o verão novo, e novamente


Verdesce a cor antiga


Das folhas redivivas.


Não mais, não mais dele o infecundo abismo,


Que mudo sorve o que mal somos, torna


À clara luz superna


A presença vivida.


Não mais; e a prole a que, pensando, dera


A vida da razão, em vão o chama,


Que as nove chaves fecham,


Da Estige irreversível.


O que foi como um deus entre os que cantam,


O que do Olimpo as vozes, que chamavam,


‘Scutando ouviu, e, ouvindo,


Entendeu, hoje é nada.


Tecei embora as, que teceis, Grinaldas.


Quem coroais, não coroando a ele?


Votivas as deponde,


Fúnebres sem ter culto. 


Fique, porém, livre da leiva e do Orco,


A fama; e tu, que Ulisses erigira,


Tu, em teus sete montes,


Orgulha-te materna,


Igual, desde ele às sete que contendem


Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,


Ou heptápila Tebas


Ogígia mãe de Píndaro. 


 


In “Poesia”


Ed. Manuela Parreira da Silva


Assírio & Alvim


 


Ricardo Reis


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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