CÁ TE ESPERO...

Recordando... Ricardo Reis

MESTRE, SÃO PLÁCIDAS


 


Mestre, são plácidas


Todas as horas


Que nós perdemos.


Se no perdê-las,


Qual numa jarra,


Nós pomos flores.


 


Não há tristezas


Nem alegrias


Na nossa vida.


Assim saibamos,


Sábios incautos,


Não a viver,


 


Mas decorrê-la,


Tranquilos, plácidos,


Tendo as crianças


Por nossas mestras,


E os olhos cheios


De Natureza...


 


À beira-rio,


À beira-estrada,


Conforme calha,


Sempre no mesmo


Leve descanso


De estar vivendo.


 


O tempo passa,


Não nos diz nada.


Envelhecemos.


Saibamos, quase


Maliciosos,


Sentir-nos ir.


 


Não vale a pena


Fazer um gesto.


Não se resiste


Ao deus atroz


Que os próprios filhos


Devora sempre.


 


Colhamos flores.


Molhemos leves


As nossas mãos


Nos rios calmos,


Para aprendermos


Calma também.


 


Girassóis sempre


Fitando o sol,


Da vida iremos


Tranquilos, tendo


Nem o remorso


De ter vivido.


 


Odes de Ricardo Reis


 


In “Fernando Pessoa – Antologia Poética” – 3ª. Edição


Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses – Editora Ulisses


Pág. 121/122


 


Ricardo Reis


 


Heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)

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