CÁ TE ESPERO...

Recordando... Rogério Fernandes

APELO


 


Dá-me as tuas mãos,


e corramos livres pelas ruas floridas,


como um vento que não tem horizonte definido!


Carregados de perfume e de brancura,


sejamos os audazes caminheiros de todos os rumos e de todos os ritmos,


enfim, senhores dos dias e dos nossos corpos!


Solta o teu cabelo e contempla-me:


não sentes o bater do meu sangue nas tuas veias,


e os lábios nos meus, sequiosos e ardentes?


Porquê então o laço nupcial, a aliança e a data memorável,


as certidões de idade, os brindes e as flores convencionais,


se tudo isso está simplesmente incluso


no nosso passeio pela rua de braço dado,


mudos, em contemplação recíproca,


unidos por dias e árvores,


presos em constelações, lábios e corpos,


ligados a lágrimas, noites de desespero e baladas saudosas?


 


In “ÁRVORE ”


Folhas de Poesia


1.º Fascículo - Inverno de 1951-52


Pág. 108


 


Rogério Fernandes


(1933-2010)

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