CÁ TE ESPERO...

Recordando... Rui Knopfli

O FIO DA VIDA


 


Há homens que rezam na penumbra


das catedrais dolentes e há outros


que do alto das pontes olham


a escuridão rumorejante das águas.


Há homens que esperam na orla


marítima e outros arrastando-se


no viscoso esterco dos subterrâneos.


Há homens debruçados em pleno azul


e outros que deslizam sobre densos verdes;


há os desatentos na atenção e os que


espreitam atentamente a ocasião.


Há homens por fora e por dentro


do cimento armado, suspensos


das mil ciladas do quotidiano voraz;


de encontro aos muros, às paredes,


ao sol do meio-dia, ao visco da noite,


às sediças solicitações de cada instante.


Há a impotência poderosa da oração


e a obsessão amarga dos suicidas


e, de permeio, os que, porque hesitam,


porque ignoram, porque não crêem,


não oram, nem se suicidam


e se quedam ante a impossibilidade de destrinça


entre o fio da vida e a vida por um fio.


 


In "Memória Consentida"


 


Rui Knopfli


(1932-1997)

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