CÁ TE ESPERO...

Recordando... Rui Knopfli

TESTAMENTO


 


Se por acaso morrer durante o sono


não quero que te preocupes inutilmente.


Será apenas uma noite sucedendo-se


a outra noite interminavelmente.


 


Se a doença me tolher na cama


e a morte aí me for buscar,


beija Amor, com a força de quem ama,


estes olhos cansados, no último instante.


 


Se, pela triste monotonia do entardecer,


me encontrarem estendido e morto,


quero que me venhas ver


e tocar o frio e sangue do corpo.


 


Se, pelo contrário, morrer na guerra


e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,


quero que saibas, Amor, quero que saibas,


pelo cérebro rebentado, pela seca veia,


 


pela pólvora e pelas balas entranhadas


na dura carne gelada,


que morri sim, que me não repito,


mas que ecoo inteiro na força do meu grito.


 


In "Memória Consentida: 20 Anos de Poesia 1959-1979"


Imprensa Nacional-Casa da Moeda


 


Rui Knopfli


(1932-1997)

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