CÁ TE ESPERO...

Recordando... Rui Pires Cabral

MORANGOS


 


No começo do amor, quando as cidades


nos eram desconhecidas, de que nos serviria


a certeza da morte se podíamos correr


de ponta a ponta a veia eléctrica da noite


e acabar na praia a comer morangos


ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos


 


a vida inteira pela frente. Mas, amigos,


como pudemos pensar que seria assim


para sempre? Ou que a música e o desejo


nos conduziriam de estação em estação


até ao pleno futuro que julgávamos


 


merecer? Afinal, o futuro era isto.


Não estamos mais sábios, não temos


melhores razões. Na viagem necessária


para o escuro, o amor é um passageiro


ocasional e difícil. E a partir de certa altura


todas as cidades se parecem.


 


In “Longe da Aldeia”


Editora Aveno


 


Rui Pires Cabral


(N.1967)

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