CÁ TE ESPERO...

Recordando... Ruy Belo

POEMA QUASE APOSTÓLICO


 


Está sereno o poeta


Desprende-se-lhe dos ombros e cai


depois em pregas por ele abaixo a manhã


Não pertencem ao dia os gestos que ele tem


não morreram na noite seus assombrosos passos


Dizem que ele volta a pôr em movimento a roda


de crianças de atitudes desmedidas


que o vento varreu e parque algum queria


E abre os braços para deixar cair na cidade


um ano favorável ao senhor


E põe o rosto do senhor por trás das suas palavras


Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar


 


In "Cidadão de longe e de ninguém"


Antologia Poética


Círculo de Leitores


 


Ruy Belo


(1933-1978)

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