CÁ TE ESPERO...

Recordando... Ruy Belo

DECLARAÇÃO DE AMOR A UMA ROMANA DO SÉCULO SEGUNDO


 


Um dia passaste pelos meus versos


Como eu agora passo por diante destas esculturas


que não merecem mais que um apressado olhar


Mas na tua presença eu tenho de parar


dama desconhecida com certeza viva mais aqui


que no segundo século em Roma onde viveste


Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar


decerto impressionante para que uns dezoito séculos mais tarde


te pudesse encontrar quem mais que tu morreu


mas te ama ó mulher perdidamente


Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo


sei que te conquistei e libertei


de qualquer compromisso que tivesses


Ninguém sabe quem eras nem eu próprio


não tens sequer um nome uns apelidos


nada se sabe acerca do teu estado civil


Sei mais que tudo isso porque sei


que atravessaste séculos na forma de escultura


só para um dia nós nos encontrarmos


Tenho mulher e filhos sou de longe


a lei é rígida e severa a sociedade


Não te importes mulher deixa-te estar


não penses não te mexas podes estar certa


de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar


pois para ser diferente de quem era


bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar


 


In “Transporte no Tempo”


Editora Presença


 


Ruy Belo


(1933-1978)

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