SOBRA-ME O QUE TE DESTE
Sobra-me o que te deste
no parado desta hora
olhar largo que me veste
inquiete brisa demora.
Espreitam anjos insónia
esquina pedra de sonhos
bordam a sombra que mora
dura mágoa nos meus olhos.
Abro vidros ao luar
ponho fora do meu peito
desfolho delas no mar
navegado do meu leito.
Onda oceano em que me alongo
grito esguio, uivo inferno
hoje perco o longe onde
me queimarei desespero.
In “Obra Poética 1957-1971”
INCM – Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Salette Tavares
(1922-1994)