LARGO DO ESPÍRITO SANTO, 2, 2.º
Nem mais, nem menos: tudo tal e qual
o sonho desmedido que mantinhas.
Só não sonharas estas andorinhas
que temos no beiral.
E moramos num largo... E o nome lindo
que o nosso largo tem!
Com isto não contáramos também
(Éramos dois sonhando e exigindo.).
Da nossa casa o Alentejo é verde.
É atirar os olhos: são searas,
são olivais, são hortas... E pensaras
que haviam nossos olhos de ter sede!
E o pão da nossa mesa!... E o pucarinho
que nos dá de beber!... E os mil desenhos
da nossa loiça: flores, peixes castanhos,
dois pássaros cantando sobre um ninho...
E o nosso quarto?... Agora podes dar-me
teu corpo sem receio ou amargura.
Olha como a Senhora da moldura
sorri à nossa alma e à nossa carne!
Em tudo, ó Companheira,
a nossa casa é bem a nossa casa.
Até nas flores. Até no azinho em brasa
que geme na lareira.
Deus quis. E nós ao Sonho erguemos muros,
rasguei janelas eu e tu bordaste
as cortinas. Depois, ó flor na haste,
foi colher-te e ficarmos ambos puros.
Puros, Amor – e à espera.
E serenos. Também a nossa casa
(Há-de bater-lhe à porta, com a asa,
um anjo de sangue e carne verdadeira.).
In “ÁRVORE ”
Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Outono de 1951
Pág. 36/37
Sebastião da Gama
(1924-1952)