CÁ TE ESPERO...

Recordando... Sebastião da Gama

LARGO DO ESPÍRITO SANTO,  2,  2.º

 

Nem mais, nem menos: tudo tal e qual

o sonho desmedido que mantinhas.

Só não sonharas estas andorinhas

que temos no beiral.

 

E moramos num largo... E o nome lindo

que o nosso largo tem!

Com isto não contáramos também

(Éramos dois sonhando e exigindo.).

 

Da nossa casa o Alentejo é verde.

É atirar os olhos: são searas,

são olivais, são hortas... E pensaras

que haviam nossos olhos de ter sede!

 

E o pão da nossa mesa!... E o pucarinho

que nos dá de beber!... E os mil desenhos

da nossa loiça: flores, peixes castanhos,

dois pássaros cantando sobre um ninho...

 

E o nosso quarto?... Agora podes dar-me

teu corpo sem receio ou amargura.

Olha como a Senhora da moldura

sorri à nossa alma e à nossa carne!

 

Em tudo, ó Companheira,

a nossa casa é bem a nossa casa.

Até nas flores. Até no azinho em brasa

que geme na lareira.

 

Deus quis. E nós ao Sonho erguemos muros,

rasguei janelas eu e tu bordaste

as cortinas. Depois, ó flor na haste,

foi colher-te e ficarmos ambos puros.

 

Puros, Amor – e à espera.

E serenos. Também a nossa casa

(Há-de bater-lhe à porta, com a asa,

um anjo de sangue e carne verdadeira.).

 

In “ÁRVORE ”

Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Outono de 1951

Pág. 36/37

 

Sebastião da Gama

(1924-1952)

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