CÁ TE ESPERO...

Recordando... Sebastião da Gama

NASCI PARA SER IGNORANTE  


 


Nasci para ser ignorante


mas os parentes teimaram


(e dali não arrancaram)


em fazer de mim estudante.


 


Que remédio? Obedeci.


Há já três lustros que estudo.


Aprender, aprendi tudo,


mas tudo desaprendi.


 


Perdi o nome às Estrelas,


aos nossos rios e aos de fora.


Confundo fauna com flora.


Atrapalham-me as parcelas.


 


Mas passo dias inteiros


a ver um rio passar.


Com aves e ondas do Mar


tenho amores verdadeiros.


 


Rebrilha sempre uma Estrela


por sobre o meu parapeito;


pois não sou eu que me deito


sem ter falado com ela.


 


Conheço mais de mil flores.


Elas conhecem-me a mim.


Só não sei como em latim


as crismaram os doutores.


 


No entanto sou promovido,


mal haja lugar aberto,


a mestre: julgam-me esperto,


inteligente e sabido.


 


O pior é se um director


espreita p'la fechadura:


lá se vai licenciatura


se ouve as lições do doutor.


 


Lá se vai o ordenado


de tuta-e-meia por mês.


Lá fico eu de uma vez


um Poeta desempregado.


 


Se me não lograr o fado


porém, com tais directores,


e de rios, aves e flores


somente for vigiado,


 


enquanto as aulas correrem


não sentirei calafrios,


que flores, aves e rios


ignorante é que me querem.


 


In ”Cabo da Boa Esperança”


Ática Editora


 


Sebastião da Gama


(1924-1952)

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