CÁ TE ESPERO...

Recordando... Sebastião da Gama

RESSURREIÇÃO


 


Que tristeza entristece a flor das águas?


Ó sereias do Mar, peixes humanos,


serão saudades vossas?


Ó sereias do Mar, que havia dantes,


quando os homens sabiam deslumbrar-se .. .


 


Se haverá Primavera no país


das algas, das anémonas...


Inútil primavera!... Quem viria


(as sereias morreram...) enfeitar-se


com as rosas marinhas?


 


Mas da noite do Mar eis se levantam


vultos de luz, etéreas esculturas.


Serão puros espíritos, mas sinto-as,


sua pele contra a minha, no meu corpo.


E um perfume de carne e maresia


me toma por inteiro, me transtorna


– casto, insistente, virgem, feminino.


 


Pela noite do Mar, inesperadas,


surgem vivas do mito que as encanta,


surgem, desencantadas, as sereias


– luas de carne enluarando a noite.


Abre-se a flor das águas como um lótus.


Conchinhas, algas, búzios, estremece-os


um frémito de gozo e de alegria.


Dançam de roda, infantilmente, os p eixes.


E as mãos do Poeta afogam-se de anémonas


primaverais, misteriosas, dignas


elas só do afago das sereias .. .


 


Arrábida, 3 e 4/IV/1950


 


(Poesia Inédita)


 


In “ÁRVORE ”


Folhas de Poesia


Direcção e Edição de António Luís Moita, António Ramos Rosa,


José Terra, Luís Amaro, Raul de Carvalho


2.° Fascículo - Inverno ele 1951-52


Pág. 85/86


 


Sebastião da Gama


(1924-1952)

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