CÁ TE ESPERO...

Recordando... Soares Passos

O MENDIGO


 


Nas torres soberbas da grande cidade


O sol desmaiado não tarda morrer;


Recrescem as sombras: que importa? a vaidade


No manto das sombras envolve o prazer.


 


E o velho, entretanto, lá sobe a montanha,


Caminha, caminha, no cimo parou:


Em frigidas gottas o rosto lhe banha


Suor cupioso, que á terra baixou.


 


Quiz, antes da morte, nas serras distantes


Fitar indo os olhos cansados da luz;


A aldeia da infancia saudar por instantes,


Depois, satisfeito, depor sua cruz.


 


Olhou, e um suspiro de vaga saudade


Juntou a seus prantos em funda mudez;


Depois, ao volver-se, topando a cidade,


Que em ebrio tumulto folgava a seus pés:


 


«Mal hajas, cidade, que ao pobre faminto


«O pão da desgraça negaste cruel!


«Mal hajas, mal hajas, que a terra do extincto


«Talvez lhe negáras á tumba infiel!»


 


E exhausto, e sem forças, caiu de joelhos;


E a fronte cansada firmou no bordão:


Passados instantes, os olhos vermelhos


Ao céo levantava, dizendo: perdão!


 


Caiam-lhe soltas, no collo vergado,


As longas madeixas em brancos anneis:


Que nobre semblante de rugas sulcado,


Sulcado dos annos, e mágoas crueis!


 


«Perdão para as vozes que solta a desgraça!


«Perdão para o triste, perdão, oh meu Deus!


«Bem hajas, que aos labios lhe roubas a taça


«De fel e amarguras, abrindo-lhe os céos.


 


«Já filhos não tenho, levou-mos a guerra;


«Esposa não tenho, finou-se de dor;


«Amigos não vejo na face da terra:


«Que faço eu no mundo? bem hajas, Senhor!


 


«Ás portas do rico bati sem alento,


«Eu, rico n'outr'ora, mendigo por fim;


«O rico sem alma negou-me sustento,


«Aquelles que amava fugiram de mim.


 


«Vaguei pelo mundo, nas faces myrrhadas


«Colhendo os insultos que ao pobre se dão;


«Sem pão, sem abrigo, por noites geladas


«Pousei minha fronte nas lageas do chão.


 


«Que vezes a morte chamei sem alento,


«Cansado do annos, e fomes, e dor!


«A morte não veio: soffri meu tormento...


«Só hoje me ouviste: bem hajas, Senhor!


 


«Os homens e o mundo negaram-me os braços,


«Mas tu me recolhes, tu me abres os teus...


«Minha alma te busca, desprende-a dos laços...


«Perdão para todos, perdão, oh meu Deus!»


 


E um ai derradeiro soltou d'ancidade,


Caindo por terra nas urzes do chão;


Ao longe, no seio da grande cidade,


Brilhava das festas nocturno clarão.


 


(Mantém a grafia original)


 


In “Poesias” - 1917


Publicações J. Ferreira dos Santos


 


Soares Passos


(1826-1860)

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