CÁ TE ESPERO...

Recordando... Soror Maria do Céu

MORTAL DOENÇA


 


Na febre do amor-próprio estou ardendo,


No frio da tibieza tiritando,


No fastio ao bem desfalecendo,


Na sezão do meu mal delirando,


Na fraqueza do ser, vou falecendo,


Na inchação da soberba arrebentado,


Já morro, já feneço, já termino,


Vão-me chamar o Médico Divino.


 


Na dureza do peito atormentada,


Na sede dos alívios consumida,


No sono da preguiça amadornada,


No desmaio à razão amortecida,


Nos temores da morte trespassada,


No soluço do pranto esmorecida,


Já morro, já feneço, já termino,


Vão-me chamar o Médico Divino.


 


Na dor de ver-me assim, vou desfazendo,


Nos sintomas do mal descoroçoando,


Na sezão de meu dano estou tremendo


No risco da doença imaginando,


No fervor de querer-me enardecendo,


Na tristeza de ver-me sufocando,


Já morro, já feneço, já termino,


Vão-me chamar o Médico Divino.


 


Vou ao pasmo do mal emudecendo,


À sombra da vontade vou cegando,


Aos gritos do delito emouquecendo,


No tempo sobre tempo caducando,


Nos erros do caminho entorpecendo,


Na maligna da culpa agonizando,


Já morro, já feneço, já termino,


Vão-me chamar o Médico Divino.


 


 


Obras Várias e Admiráveis


 


In “Breve Antologia Poética do Período Barroco”


Livª. Civilização Editora – Porto e Contexto Editora – Lisboa


 


Soror Maria do Céu


1658 – 1753

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