CÁ TE ESPERO...

Recordando... Teixeira de Pascoaes **

ELEGIA DO AMOR


I


 


Lembras-te, meu amor,


Das tardes outonais,


Em que íamos os dois,


Sozinhos, passear,


Para fora do povo


Alegre e dos casais,


Onde só Deus pudesse


Ouvir-nos conversar?


Tu levavas, na mão,


Um lírio enamorado,


E davas-me o teu braço;


E eu, triste, meditava


Na vida, em Deus, em ti…


E, além, o sol doirado


Morria, conhecendo


A noite que deixava.


Harmonias astrais


Beijavam teus ouvidos;


Um crepúsculo terno


E doce diluía,


Na sombra, o teu perfil


E os montes doloridos…


Erravam, pelo Azul,


Canções do fim do dia.


Canções que, de tão longe,


O vento vagabundo


Trazia, na memória…


Assim o que partiu


Em frágil caravela,


E andou por todo o mundo,


Traz, no seu coração,


A imagem do que viu.


Olhavas para mim,


Às vezes, distraída,


Como quem olha o mar,


À tarde, dos rochedos…


E eu ficava a sonhar,


Qual névoa adormecida,


Quando o vento também


Dorme nos arvoredos.


Olhavas para mim…


Meu corpo rude e bruto


Vibrava, como a onda


A alar-se em nevoeiro.


Olhavas, descuidada


E triste… Ainda hoje escuto


A música ideal


Do teu olhar primeiro!


Ouço bem tua voz,


Vejo melhor teu rosto


No silêncio sem fim,


Na escuridão completa!


Ouço-te em minha dor,


Ouço-te em meu desgosto


E na minha esperança


Eterna de poeta!


O sol morria, ao longe;


E a sombra da tristeza


Velava, com amor,


Nossas doridas frontes.


Hora em que a flor medita


E a pedra chora e reza,


E desmaiam de mágoa


As cristalinas fontes.


Hora santa e perfeita,


Em que íamos, sozinhos,


Felizes, através


Da aldeia muda e calma,


Mãos dadas, a sonhar,


Ao longo dos caminhos…


Tudo, em volta de nós,


Tinha um aspecto de alma.


Tudo era sentimento,


Amor e piedade.


A folha que tombava


Era alma que subia…


E, sob os nossos pés,


A terra era saudade,


A Pedra comoção


E o pó melancolia.


Falavas de uma estrela


E deste bosque em flor;


Dos ceguinhos sem pão,


Dos pobres sem um manto.


Em cada tua palavra,


Havia etérea dor;


Por isso, a tua voz


Me impressionava tanto!


E punha-me a cismar


Que eras tão boa e pura,


Que, muito em breve – sim! -,


Te chamaria o céu!


E soluçava, ao ver-te


Alguma sombra escura,


Na fronte, que o luar


Cobria, como um véu.


A tua palidez


Que medo me causava!


Teu corpo era tão fino


E leve (oh meu desgosto!)


Que eu tremia, ao sentir


O vento que passava!


Caía-me, na alma,


A neve do teu rosto.


Como eu ficava mudo


E triste, sobre a terra!


E uma vez, quando a noite


Amortalhava a aldeia,


Tu gritaste, de susto,


Olhando para a serra:


- Que incêndio! – E eu, a rir,


Disse-te: - É a lua cheia!...


E sorriste também


Do teu engano. A lua


Ergueu a branca fronte,


Acima dos pinhais,


Tão ébria de esplendor,


Tão casta e irmã da tua,


Que eu beijei, sem querer,


Seus raios virginais.


E a lua, para nós,


Os braços estendeu.


Uniu-nos num abraço,


Espiritual, profundo;


E levou-nos assim,


Com ela, até ao céu…


Mas, ai, tu não voltaste


E eu regressei ao mundo.


 


II


 


Um raio de luar,


Entrando, de improviso


No meu quarto sombrio,


Onde medito, a sós,


Deixa, a tremer, no ar,


Um pálido sorriso,


Um murmúrio de luz


Que lembra a tua voz.


O Outono, que derrama


Ideal melancolia


Nas almas sem amor,


Nos troncos sem folhagem,


Deixa vibrar, em mim,


Saudosa melodia,


Dolorida canção,


Que lembra a tua imagem.


A noite, que escurece


Os vales e os outeiros,


E que acende, num bosque,


A voz do rouxinol


E a estrela que protege


E guia os pegureiros;


A lágrima do céu


Ao ver morrer o sol,


Acorda, no meu peito,


Infinda e etérea dor,


Que à memória me traz


A luz do teu olhar.


Tudo de ti me fala,


 Ó meu longínquo amor:


As árvores, a névoa,


Os rouxinóis e o mar.


Se passo por um lírio,


Às vezes, distraído,


Chama por mim, dizendo:


“Oh! Não te esqueças dela!”


Diz-mo também, chorando


O vento dolorido.


Diz-mo a fonte, a cantar,


Diz-mo, a brilhar, a estrela.


E vejo, em toda a luz,


Teus olhos a fulgir.


Como adivinho, em tudo,


A alma que perdi!


Não encontro uma flor,


Sem o teu nome ouvir.


Não posso olhar o céu,


Sem me lembrar de ti!


Por isso, eu amo o pobre,


O triste e a Natureza,


A mãe da humana dor,


Da dor de Deus a filha.


Meu coração, ao pé Dum pobrezinho, reza;


Canta, ao lado dum ninho,


Ao pé da estrela, brilha.


O meu amor por ti,


Meu bem, minha saudade,


Ampliou-se até Deus,


Os astros alcançou.


Beijo o rochedo e a flor,


A noite e a claridade.


São estes, sobre o mundo,


Os beijos que te dou.


Hás-de senti-los, sim,


Doce mulher de outrora.


Ó roxo lírio de hoje,


Ó nuvem actual!


Como dantes teu rosto,


A rosa ainda hoje cora;


Beijo-te, sim, beijando


A rosa virginal.


Teu espectro divaga,


Ao longo dos espaços.


Teu amor, feito luz,


Desce do Firmamento.


Se abraço um verde tronco,


Eu sinto, entre os meus braços,


Teu corpo estremecer,


Como uma flor, ao vento.


Soluça a tua dor


Nas infinitas mágoas,


Que, no fumo da tarde,


Eu vejo, além, subir.


E paira a tua voz


No marulhar das águas,


No murmúrio que sai


Das pétalas a abrir.


Se os lábios vou molhar


Nas ondas duma fonte,


Queimam meu coração


Tuas lágrimas salgadas.


E, quando acaricia


O vento a minha fronte


Eu bem sinto, sobre ela,


As tuas mãos sagradas.


Quando a lua, no Outono,


Envolta em luz funérea,


Morta, vai a boiar


Nas águas do Infinito,


Doira meu frio rosto


A palidez etérea,


Que dantes emanava


O teu perfil bendito.


Quando, em manhãs d`Abril,


Acordo, de repente,


E vejo, no meu quarto,


O sol entrar, sorrindo,


Julgo ver, ante mim,


Teu corpo resplendente,


Tua trança de luz,


Teu gesto suave e lindo.


Descubro-te, mulher,


Na Natureza inteira,


Porque entendo a floresta,


A névoa, o céu doirado,


A estrela a arder, no Azul,


A lenha, na lareira


E o lírio que, na cruz


Do outono, está pregado.


Falas comigo, sim,


Da dor, do bem, de Deus.


Repartes o meu pão,


Amor, pelos ceguinhos.


E pelas solidões


Os pobres versos meus,


Como os pobres que vão,


A orar, pelos caminhos.


És a minha ternura,


A minha piedade,


Pois tudo me comove!


O zéfiro mais leve


Acende, no meu peito,


Infinda claridade;


E a brancura do lírio


Enche meu ser de neve.


Todo eu fico a cismar


Na louca voz do vento,


Na atitude serena


E estranha duma serra;


No delírio do mar,


Na paz do Firmamento


E na nuvem, que estende


As asas, sobre a terra.


Todo eu fico a cismar,


Assim como que esquecido,


Ante a flor virginal


E o sol enamorado.


Ante o luar que nasce,


Ao longe, dolorido,


Dando às cousas um ar


Tão triste e macerado.


Todo eu medito e cismo.


Um vago e etéreo laço


Prende-me ao teu imendo


E livre coração,


Que abrange o mundo inteiro


E ocupa todo o espaço,


E que vai povoar


A minha solidão.


Por isso, eu vivo sempre,


Em doce companhia,


Com o pobre que pede


E a estrela que fulgura;


E, assim, a minha alma,


Igual à luz do dia


Derrama-se, no céu,


Em ondas de ternura.


Sou como a chuva e o vento


E a sombra duma cruz!


Lira, que a mais suave


Aragem faz vibrar.


Água que, ao luar brando,


Em nuvens se traduz;


Fruto que amadurece,


À luz dum claro olhar.


Pedra que um beijo funde


E místico vapor,


Que um hálito condensa


Em pura gota de água.


Sou aroma que um ai


Encarna em triste flor;


Riso que muda em choro


A mais pequena mágoa.


Vivo a vida infinita,


Eterna, esplendorosa.


Sou neblina, sou ave,


Estrela, Azul sem fim,


Só porque, um dia, tu,


Mulher misteriosa,


Por acaso, talvez,


Olhaste para mim.


 


In “Poesia de Amor”


Antologia Portuguesa  


Selecção e prefácio de José Régio e Alberto de Serpa,


Livraria Tavares Martins - Porto - 1945


 


Teixeira de Pascoaes **


(1877-1952)


 


** Pseudónimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos


 


 

0