VIAGEM
Viajar, diz-se,
é perder países
ou fotografar o evidente.
O mundo fica mais pequeno
e arquivamos
bilhetes postais, memórias
coloridas que depressa
se esvanecem dentro de nós
ou às vezes se magnificam.
Mostram-nos de longe
quando muito
a raiva de certas criaturas
dos bairros mais escuros.
Gentes sem pão nem trabalho
ou com horas de sofrimento em excesso
sabemos que há e são muitas,
mas pouco as vemos ao viajar.
Os senhores do mundo
com inegável elegância
deixam cair
algumas consolações caridosas
de vez em quando
sobre essa humanidade deprimida.
Há-de haver porém - ou rasgamo-la nós -
Uma janela qualquer,
Toda branca ou de fogo,
Que se abra inesperadamente
Para outro futuro.
In "Horas de Vidro"
Publicações Dom Quixote
Urbano Tavares Rodrigues
(1923-2013)