CÁ TE ESPERO...

Recordando... Vasco Graça Moura

PRESENTE DO INDICATIVO


 


entro na cozinha. Ela está no meio dos legumes,


lava e enxuga folhas tenras de alface, endívias


de oblonga contextura, corta a cebola às


rodelas, pica um ramo de coentros,


hesita um pouco sobre o roquefort, é certeira no vinagre e no sal,


 


e prudente no azeite. O ovo cozido espera a sua vez e a


saladeira aguarda na mesa junto aos azulejos brancos.


ela procura os talheres de madeira na gaveta,


pede-me qualquer coisa, a lâmina reluz sobre a tábua, perto do pão.


a preparação da salada requer vários gestos precisos


 


e uma poética discreta nos brilhos frisados, nos


paladares. pela janela chegam os ruídos da rua,


campainhas de bicicleta, ressaltos de uma bola.


o cão dormita no sofá. Uns versos populares comparam


os olhos dela a azeitonas pretas.


 


In "Poesia 1993-1995"


Círculo de Leitores


 


Vasco Graça Moura


(1942-2014)

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