O SONETO ENCONTRADO NA GARRAFA
é a ti que eu quero nesta ilha deserta:
livro nenhum, quadro nenhum, nem disco
(gosto de tanta coisa que faísco
mas a escolher assim nunca se acerta).
quero trazer-te a ti, ágil, desperta,
despenteadamente a cada risco,
e viver de algas, peixe e marisco
e nunca mais fazer sinais de alerta
e os navios ao longe ver passar,
enquanto a roupa seca na palmeira
(esta ilha tem uma, de maneira
que não é só rochedo e à roda o mar).
e tu entre corais, náufraga e nua,
a boiar no meu peito à luz da lua.
In “Os dia do Amor, um poema para cada dia do ano”
Ministério dos Livros
Vasco Graça Moura
(1942-2014)