CÁ TE ESPERO...

Recordando... Virgínia do Carmo

NAUFRÁGIO


 


Fui enviada para o mar de madrugada.


Ninguém me avisou da melancolia dos peixes


ou da nudez das ondas. Nada me disseram


do silêncio. Sem luz que me escutasse as mãos,


rompi sem preceito alguma da escuridão.


Imperfeitamente.


 


Vieram, entretanto, outros mares contra o meu.


Cega, fui derrubada. Os peixes morreram-me


de susto. A nudez do resto permaneceu. Todas


as coisas se afundaram no tão fundo da minha


lucidez. Sou tão descabida de mim, agora, que


tudo se parte no meu corpo, devagar.


 


In "Ecos de Green Rose"


Poética Edições


 


Virgínia do Carmo


(N.1973)

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