HORIZONTE DOS DIAS
1
Deves viver, inesperada, à beira-morte
prendendo teus gestos na curva do silêncio,
tocando a fronte dos deuses mais altos
como tu,
branca geometria de olhos puros,
construindo rosas, indícios, e uma vaga saudade
de noiva não nascida – a única
pelos humanos esperada eternamente
à nocturna varanda dos poemas.
2
O que eu te diria tem o nome dos instantes suspensos
como há depois da música, nas flores,
e no começo da noite...
O que eu te diria só podias ouvi-lo com a última nudez;
minhas palavras têm a claridade dos corpos que se dão
sem pertencerem.
O que eu te diria tem-te esperado muito.
Por isso te sabe de cor e te perco tanto;
e dos longos diálogos que é não chegares
vais morrendo, excessiva, de ti mesma.
Se nalgum lugar do destino nos encontrarmos
olharás em mim o teu rosto com olhos brancos,
como se olhasses tua morte mais pura.
In “ÁRVORE”
Folhas de Poesia
1.º Fascículo - Inverno de 1951-52
Pág. 116
Vítor Matos e Sá
(1927-1975)