CÁ TE ESPERO...

Recordando... Vítor Matos e Sá

HORIZONTE DOS DIAS


 


1


 


Deves viver, inesperada, à beira-morte


prendendo teus gestos na curva do silêncio,


tocando a fronte dos deuses mais altos


como tu,


branca geometria de olhos puros,


construindo rosas, indícios, e uma vaga saudade


de noiva não nascida – a única


pelos humanos esperada eternamente


à nocturna varanda dos poemas.


 


2


 


O que eu te diria tem o nome dos instantes suspensos


como há depois da música, nas flores,


e no começo da noite...


 


O que eu te diria só podias ouvi-lo com a última nudez;


minhas palavras têm a claridade dos corpos que se dão


sem pertencerem.


 


O que eu te diria tem-te esperado muito.


Por isso te sabe de cor e te perco tanto;


e dos longos diálogos que é não chegares


vais morrendo, excessiva, de ti mesma.


 


Se nalgum lugar do destino nos encontrarmos


olharás em mim o teu rosto com olhos brancos,


como se olhasses tua morte mais pura.


 


In “ÁRVORE”


Folhas de Poesia


1.º Fascículo - Inverno de 1951-52


Pág. 116


 


Vítor Matos e Sá


(1927-1975)

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