CÁ TE ESPERO...

Recordando... Vítor Nogueira

VARANDAS


 


A procissão dividiu a rua a meio,


como é costume fazer-se a uma noz.


Na varanda de Dona Joaquina, a colcha


mais bonita da cidade, peça antiga


de família, que em tempos lhe foi dada


para juntar ao enxoval.


 


Em meados da década de cinquenta,


o Senhor Gouveia e a Dona Joaquina


estiveram, vai-não-vai, para se entender.


Depois, enfim, aquele jeito de poeta,


aquele modo de tirar o chapéu


a uma senhora... E nunca mais se falaram


desde então, razões certamente ponderosas


que ninguém conhece ao certo.


 


Mas, no dia em que passa a procissão,


o Senhor Gouveia pode olhar, demorado,


a sua musa. Esperará por si, ainda hoje,


a solteira Joaquina? E até que ponto


era capaz de lhe dizer do seu desejo


(da maneira como o diz em sonetos


desde sempre guardados no armário)?


 


Entretanto, examina o velho busto


recortado pela colcha que jamais o acolheu.


 


In "Senhor Gouveia"


Averno - 2006


 


Vítor Nogueira


(N.1966)

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