CÁ TE ESPERO...

Recordando... Vitorino Nemésio

A CONCHA


 


A minha casa é concha. Como os bichos


Segreguei-a de mim com paciência:


Fachada de marés, a sonho e lixos,


O horto e os muros só areia e ausência.


 


Minha casa sou eu e os meus caprichos.


O orgulho carregado de inocência


Se às vezes dá uma varanda, vence-a


O sal que os santos esboroou nos nichos.


 


E telhados de vidro, e escadarias


Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!


Lareira aberta ao vento, as salas frias.


 


A minha casa... Mas é outra a história:


Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,


Sentado numa pedra de memória.


 


In “O Bicho Harmonioso”


Revista de Portugal – 1938


 


Vitorino Nemésio


(1901-1978)

0