CÁ TE ESPERO...

Recordando... Vitorino Nemésio

VERBO E ABISMO


 


Já da vaga vocálica dependo


Como a alga que a onda leva à areia:


Mas eu mesmo, que a digo, mal entendo


A voz que clama a minha vida e a enleia.


 


Se intervenho no som gratuito, ofendo


Seu sentido secreto e íntima cheia:


Transtornado por ela, emendo, emendo,


E é ela que me absorve e senhoreia.


 


Verbo ao abismo idêntico, toado


Sobre os traços de fogo que precedem


A presença de Deus no monte irado,


 


Ao teu sopro de amor as vozes cedem


O que a morte decifra e restitui


Ao espírito liberto do que fui.


 


In “O Verbo e a Morte”


Moraes Editores - 1959


 


Vitorino Nemésio


1901 – 1978

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