CÁ TE ESPERO...

Recordando... Vitorino Nemésio

FUI HOJE À CAIXA, MARGA


 


Fui hoje à Caixa, Marga, receber


A pensão de reforma.


Coxo e doido, Marga. Muito!


Duro é ser velho, e, então, de ossos a arder?


A minha tíbia engole facas.


Fui hoje à Caixa receber


O troco das pernas fracas.


E lembrei-me de ti, que eras habituée


Lá pela ordem dos trinta, dos cinquenta milhões.


Da formiga à cigarra:


(Iguais ocasiões)


- Que faisiez vous aux temps chaux,


Dit-elle à cette emprunteuse.


Lembrei-me de ti com La Fontaine,


Cigarra, claro, chanteuse.


Formiga fora uma aubaine.


Marga, é tão triste o dinheiro!


Até já o ganhas, como eu,


E andaste coxa, cheia de dores


Tu que o atiravas aos punhados


Como em batalha de flores


Estás como os reformados


À espera dos directores


Mas como ainda és bonita


E há sempre um, pronto aos favores,


Vê bem o que ele te debita


Que descontos te faz


Ê provável que insista


Sabendo-te "petite amie" de um pobre pensionista


A menina bem sabe que há certas coisas que nem mesmo um aperto


(Ai, a minha peminha!)


Comucópia - corno coxo.


 


In "Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga"


IN-CM - Imprensa Nacional-Casa da Moeda


 


Vitorino Nemésio


(1901-1978)

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