CÁ TE ESPERO...

Recordando... Vitorino Nemésio

DEFESA


 


Guarda a manhã como uma rosa,


Molha-a, que a noite vem aí.


Dorme tu nos espinhos; goza


O que é próprio de ti.


 


Não dês flores a ninguém


Que tua mão lhe corte,


E, se puderes,


Leva as mais que puderes à tua morte


Em coroa que te fique bem.


 


Não gastes o jardim puro


De que tu mesmo és terra:


A tua vida, muro,


Teu coração a encerra.


 


Rosas façam de sangue os que as desejam;


Cada um se floresça:


As tuas não se vejam


Quando a roseira cresça.


 


Abre ao lume doído


Os botõezinhos novos.


No ninho despido,


Ave, os teus ovos.


 


Ao frio e ao escuro cria


Larvas de luz compostas


Do que deita alegria


Sobre as coisas que gostas.


 


Mas rosas dadas, não:


Nem que tu fosses flores


E raiz teu destino


Engrossando no chão.


As tuas flores


São do menino


Sempre foste. Não!


 


In “O Bicho Harmonioso”


 


 


(1901-1978)

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